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Post Nove


Dois dias. Dois dias foi o tempo que consegui ficar eufórica e feliz por ter me livrado de você. Dois foi o tempo que consegui olhar pros pássaros e acreditar que tudo ficaria bem, esse foi o tempo que me iludi com essa ideia.
Nesses dois dias falei louca e exaustivamente sobre o quão ruim você era, sobre como você não merecia meu doce, bugado, e doentio amor. Nesses dois dias estive exaustivamente me ocupando de uma novela mexicana de péssimo roteiro que eu mesma criei.
A dois dias atrás eu fiz algo que nunca fiz na vida e nunca deveria ter feito. Mas como bem sabemos o espírito impulsivo sempre foi uma das coisas que temos em comum. Poderia dizer que desci do salto, mas a realidade é que com você eu nunca usei salto, com você eu sempre andei descalço (mesmo você achando que não). Poderia dizer que me rebaixei, mas essa afirmação é tão óbvia quanto qualquer coisa que eu venha escrever nesse texto inútil.
Sabe aqueles filmes de guerra que você sempre amou? Aqueles da vida real, sem ficção, sem romance, apenas homens lutando pela vida? Eu fui um soldado caro Watson, um soldado que iria morrer anyways. Eu fui o piloto britânico em Dunkirk, aquele que sem combustível pra voltar pra casa resolveu ficar na ilha e atirar o quanto fosse possível. Mas ao fim do dia ele simplesmente teve que pousar e ser morto pelos alemães. Minto, essa é a visão linda de um herói de guerra, a visão de mim mesma sobre minha atitude infantil (eu me justifico sempre), a real é que eu sou um guerreiro Viking. Um guerreiro Viking que queria muito ter levado mil almas e morrer lutando em campo, mas que na verdade depois de levar uma estacada no peito apenas conseguiu arremessar seu machado em direção ao nada. 
Tudo seria mais lindo se ao menos eu chegasse em Asgard como herói, mas cheguei como um soldado meio retardado (e quando não fui não é mesmo?).
Poderia dizer que desejo que você seja feliz, mas isso seria uma mentira tão grande quanto eu dizendo “que Deus te acompanhe”. Eu não quero que você seja feliz. Não sou o ser superior do universo que deseja o bem ao próximo (e você também não é). Somos pessoas más, seria por isso que nos demos tão bem?
Pelo menos eu pus fogo na casa não é mesmo? Será que você entende a minha necessidade em ter feito isso?  Dois dias. Dois dias foi o tempo que consegui ignorar a sua existência, mesmo depois de você ter me destruído por completo, meu espirito de Ruth simplesmente me faz voltar arrastando como uma ameba em uma placa de Petri, e cá estou escrevendo sobre você novamente.
Isso não é amor, eu sei, você sabe, meus amigos sabem, todos os leitores desse blog sabem. Você disse que eu sou tóxica e na real eu sempre soube. Você me culpa por ter te intoxicado com coisas ruins, mas isso é só seu sistema imunológico bugado, isso é apenas seu coração rancoroso ignorando tudo de bom que fizemos juntos, isso é apenas você sendo errado.
Eu sou tóxica, isso é verdade, mas saiba que você é um câncer. Um lindo câncer de pâncreas, agressivo, sem tratamento. Qualquer ação que eu faça é apenas paliativa, o que me espera é apenas uma morte lenta e extremamente dolorosa. Você é um câncer Bebê. Meus amigos e familiares me pedem pra ser forte e aguentar o tratamento, mas já está tão avançado e já estou tão cansada que eu só espero que me mate logo.
Dois dias e cá estou a fazer do meu blog desabafo silencioso. Talvez eu faça da sua janela vazia um rascunho permanente de meus posts bobos. Sabe por que ainda não a apaguei? Estou me obrigando a ouvir e ler quantas vezes for necessário tudo que você me disse de horrível.
Agora mesmo acabei de re-ouvi-los e relê-los. Eu preciso, quero que sua voz me dizendo as piores coisas que já ouvi na vida entrem no meu DNA. Preciso mostrar ao meu irracional que você nunca foi o deuso que eu pintei, e isso sou eu fazendo quimioterapia e radioterapia. Isso sou eu tentando sobreviver ao tumor maligno que você se tornou pra mim, cheio de metástases. Mas o fim é apenas um não é mesmo?
Sei que metáforas ao vento nunca ajudaram ninguém a nada, temos uma grande leva de poetas mortos pra provar, mas eu sei que muitas coisas e isso nunca fez diferença anyways.


Angélica Justino

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