segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Post Nove


Dois dias. Dois dias foi o tempo que consegui ficar eufórica e feliz por ter me livrado de você. Dois foi o tempo que consegui olhar pros pássaros e acreditar que tudo ficaria bem, esse foi o tempo que me iludi com essa ideia.
Nesses dois dias falei louca e exaustivamente sobre o quão ruim você era, sobre como você não merecia meu doce, bugado, e doentio amor. Nesses dois dias estive exaustivamente me ocupando de uma novela mexicana de péssimo roteiro que eu mesma criei.
A dois dias atrás eu fiz algo que nunca fiz na vida e nunca deveria ter feito. Mas como bem sabemos o espírito impulsivo sempre foi uma das coisas que temos em comum. Poderia dizer que desci do salto, mas a realidade é que com você eu nunca usei salto, com você eu sempre andei descalço (mesmo você achando que não). Poderia dizer que me rebaixei, mas essa afirmação é tão óbvia quanto qualquer coisa que eu venha escrever nesse texto inútil.
Sabe aqueles filmes de guerra que você sempre amou? Aqueles da vida real, sem ficção, sem romance, apenas homens lutando pela vida? Eu fui um soldado caro Watson, um soldado que iria morrer anyways. Eu fui o piloto britânico em Dunkirk, aquele que sem combustível pra voltar pra casa resolveu ficar na ilha e atirar o quanto fosse possível. Mas ao fim do dia ele simplesmente teve que pousar e ser morto pelos alemães. Minto, essa é a visão linda de um herói de guerra, a visão de mim mesma sobre minha atitude infantil (eu me justifico sempre), a real é que eu sou um guerreiro Viking. Um guerreiro Viking que queria muito ter levado mil almas e morrer lutando em campo, mas que na verdade depois de levar uma estacada no peito apenas conseguiu arremessar seu machado em direção ao nada. 
Tudo seria mais lindo se ao menos eu chegasse em Asgard como herói, mas cheguei como um soldado meio retardado (e quando não fui não é mesmo?).
Poderia dizer que desejo que você seja feliz, mas isso seria uma mentira tão grande quanto eu dizendo “que Deus te acompanhe”. Eu não quero que você seja feliz. Não sou o ser superior do universo que deseja o bem ao próximo (e você também não é). Somos pessoas más, seria por isso que nos demos tão bem?
Pelo menos eu pus fogo na casa não é mesmo? Será que você entende a minha necessidade em ter feito isso?  Dois dias. Dois dias foi o tempo que consegui ignorar a sua existência, mesmo depois de você ter me destruído por completo, meu espirito de Ruth simplesmente me faz voltar arrastando como uma ameba em uma placa de Petri, e cá estou escrevendo sobre você novamente.
Isso não é amor, eu sei, você sabe, meus amigos sabem, todos os leitores desse blog sabem. Você disse que eu sou tóxica e na real eu sempre soube. Você me culpa por ter te intoxicado com coisas ruins, mas isso é só seu sistema imunológico bugado, isso é apenas seu coração rancoroso ignorando tudo de bom que fizemos juntos, isso é apenas você sendo errado.
Eu sou tóxica, isso é verdade, mas saiba que você é um câncer. Um lindo câncer de pâncreas, agressivo, sem tratamento. Qualquer ação que eu faça é apenas paliativa, o que me espera é apenas uma morte lenta e extremamente dolorosa. Você é um câncer Bebê. Meus amigos e familiares me pedem pra ser forte e aguentar o tratamento, mas já está tão avançado e já estou tão cansada que eu só espero que me mate logo.
Dois dias e cá estou a fazer do meu blog desabafo silencioso. Talvez eu faça da sua janela vazia um rascunho permanente de meus posts bobos. Sabe por que ainda não a apaguei? Estou me obrigando a ouvir e ler quantas vezes for necessário tudo que você me disse de horrível.
Agora mesmo acabei de re-ouvi-los e relê-los. Eu preciso, quero que sua voz me dizendo as piores coisas que já ouvi na vida entrem no meu DNA. Preciso mostrar ao meu irracional que você nunca foi o deuso que eu pintei, e isso sou eu fazendo quimioterapia e radioterapia. Isso sou eu tentando sobreviver ao tumor maligno que você se tornou pra mim, cheio de metástases. Mas o fim é apenas um não é mesmo?
Sei que metáforas ao vento nunca ajudaram ninguém a nada, temos uma grande leva de poetas mortos pra provar, mas eu sei que muitas coisas e isso nunca fez diferença anyways.


Angélica Justino

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Post Oito

Eu pus fogo na casa outras vezes, mas foi brando. Da primeira vez foi na cozinha, acendi as cortinas e observei queimar. Quando as chamas ficaram altas me desesperei em arrependimentos e corri pra apagar.
Da segunda vez foi no quarto. Esse foi um pouco mais pesado, acendi uma vela no meio do recinto e analisei se valia a pena ou não, por fim joguei a vela preta em cima da cama e assisti novamente. Quando o quarto começou a esquentar e me sufocar me perguntei mais uma vez que diabos eu estava fazendo. Claramente ia me matar, corri pra cozinha peguei um balde de água e corri apagando a cama.
Depois de um tempo a casa estava toda destruída e eu, ridiculamente, insistindo em viver nela. A cozinha em retalhos, o quarto em cinzas, eu dormia na sala pois a cama não existia mais. 
Em meio àquele caos de destruição me perguntei: "Porquê diabos é tão difícil me livrar de coisas que não funcionam mais?". 
Me questionei sobre todo meu arsenal de coisas velhas que nunca mais usava e também não jogava fora, por carinho? Por achar que ainda havia um significado no mulambo de pano de prato queimado? Por esperar que milagrosamente a cabana de lençol se restituísse das cinzas?
Bom, dessa vez eu fiz o serviço completo, peguei gasolina e joguei em todos os cômodos da casa. Joguei primeiro no quarto moribundo e já destruído, depois no banheiro, na cozinha e no nosso sofá.

Ainda nostálgica e me perguntando se isso era o certo a se fazer, acendi um cigarro com um fósforo meio úmido e joguei o palito no chão. Primeiro observei as chamas azuis crescendo pelo chão encharcado, depois elas ficaram amarelas e altas, a fumaça começou a me sufocar, então sai da casa azul que com muito carinho construímos.
           Sentei do outro lado da rua e assisti queimar enquanto fumava um Luck Strike verde.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Post Sete


Esperança! Ah a esperança. Esse pequeno sentimento que nos segura nas horas difíceis onde não vemos mais nenhum caminho ou sentido. Esse sentimento que nos mantém seguindo e construindo esse mundo aleatório e vida confusa na ânsia de que um dia tudo fará sentido, na ânsia de acreditar em um amanhã melhor.
O que seria do mundo sem esperança? Não estou questionando sua importância na construção do universo e necessidade na sociedade, não caros leitores essa esperança, ainda que ilusória faz bem e é necessária. Hoje venho lhes apresentar a esperança ruim, a esperança doentia, aquela pequena mutação genética, a esperança errada.
Mas por que errada? Imaginem que você comprou suas sementes transgênicas de soja pra começar sua linda plantação de comodites. Sua soja genericamente modificada possui marcadores que produzem enzimas capazes de degradar as moléculas do agrotóxico utilizado pra matar insetos, outras plantas, pequenos animais e até mesmo você. Entretanto, bem no meio da sua plantação surge uma plantinha que ao aleatório do universo – ou segundo Darwin, pelas e mutações do meio- também possui aquela enzima que degrada o agrotóxico, ou seja ela não vai morrer. Na sua plantação de comotites temos duas plantas crescendo, sua soja e a latente erva daninha.
Mas voltamos a perguntar, o que tem de errado nisso? – além de uma plantação com um baixo rendimento. Digamos que a erva daninha é a esperança em algo que não tem volta, algo que nunca vai acontecer, algo que não faz o menor sentido. Digamos que a erva daninha é você esperando Supernatural voltar a ser uma série sensacional. Essa esperança é você acreditando que a DC vai passar a Marvel na qualidade dos filmes. Essa esperança é você estudante de química achando que vai fazer bomba na faculdade.
Meus amigos essa esperança errada só atrapalha a vida do ser humaninho triste e auto sapotador. Por mais que doses e mais doses de agrotóxicos sejam administradas todos os dias você ainda, no fundinho recessivamente acreditando que um dia Hannibal irá voltar.
Concluo dizendo que minha esperança é essa erva daninha que cresce em qualquer solo, quem me conhece sabe que tenho uma péssima mão pra agricultura, porém essa ervinha ainda insiste em crescer nesse solo errado. O que eu posso fazer? “foi K.O.”
Resta aceitar neh non?


quarta-feira, 26 de julho de 2017

Post Seis

Eu sou tóxica bebê. Você dúvida? Te desafio a estar ao meu lado por algum tempo, não só estar ao meu lado. Te desafio a gostar de mim e me fazer gostar de você. Inicialmente tudo é lindo e rosas, na sequência da tragédia grega eu faço você se sentir infinitamente mal por motivos que ao meu ver são plausíveis e coerentes, não que os motivos sejam banais.
Na verdade os motivos de eu fazer você se sentir mal são bem fortes e reais, muitas pessoas diriam que passiveis de se causar sofrimento, mas meu senso de sempre achar que estou certa não vem ao caso, muito menos meu dedo podre muito discutido entre amigos.
Esse post é sobre a minha toxicidade. Eu sou tipo o elemento químico rádio que antes da descoberta da radioatividade era utilizado como corante para relógios por ser fluorescente e ter uma linda cor esverdeada. Quem não adora um relógio fluorescente? O problema foi os efeitos adversos de seu uso, assim como o Rádio eu causo náuseas, vômitos, seguidos de diarreia, dores de cabeça e febre, além de fortes dores emocionais e tendência a ouvir músicas badvibes.
Outro efeito recorrente de quem é exposto a mim é a constante alteração entre block/unblock das redes sociais, em geral quem está profundamente contaminado oscila bastante entre esses dois estados, mas ai o pessoal me pergunta “mas porque você é assim?”
Meus leitores amados assim como não sabemos se existe vida após a morte ou se o Brasil um dia será livre da corrupção, a origem da minha toxicidade é desconhecida, poderia eu tentar resolvê-la? Oh God knows I’m trying, mas assim como entender a utilidade de um spinner retirar tanta radioatividade de meu núcleo instável é quase que impossível de se tornar um lindo bário ou sódio, não sem me partir em vários decaimentos emanado radiação pra todos os lados.

Por fim concluo que não há conclusões, ser tóxica não é algo que eu queria, apenas algo que aconteceu, algo que tento fugir de ser. Logo aos intoxicados ou aos que ainda sim se aventuram em me conhecer deixo meu aviso de “DANGER ☠” e recomendo o uso de EPI’s.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Post Cinco

Aleatoriamente um beija flor entrou na minha sacada em uma manhã a uns meses atrás. Inicialmente ignorei o animalzinho que ingenuamente entrou naquele apartamento pequeno e meio abafado para um mês qualquer de verão. Como não encontrou nada, nenhuma flor ou água ele partiu.
No dia seguinte o pequeno iludido entrou pela sacada outra vez, ainda esperançoso e na ânsia por algo que eu não tinha a oferecer e nem iria. Ao longo dos dias o beija-flor entrava e saia do meu apartamento, não sei se por teimosia ou por burrice. Vocês podem se perguntar porque eu não tenho flores na janela como aquelas lindas sacadas, mas o fato de eu não conseguir cultivar nada pode ser discutido em outro post. 
Ainda seguindo a história, em um sábado qualquer, passando pela floricultura resolvi comprar um suporte daqueles floridos de plástico, depois de tanta insistência do animalzinho ele merecia minha atenção.
Cheguei em casa, preparei a solução aquosa de glicose em uma concentração quase analítica, coloquei no suporte e pendurei na sacada. Na manhã seguinte ele apareceu e meio que sentindo o cheiro ou vendo a cor chamativa daquele negócio se deleitou no doce. Ele me pareceu feliz e de repente eu me senti feliz por ele estar ali me fazendo companhia todas as manhãs.
Os meses se passaram e certo dia ele não veio mais. Primeiro pensei que algo tinha acontecido, um gato poderia tê-lo feito de refeição ou um gavião, essa ideia me deixou muito triste e chorei. Depois de um tempo me convenci de que na verdade ele havia encontrado uma casa melhor com um açúcar mais doce, quem sabe água ou um ninho. Essa segunda ideia também me fez chorar.
Mas qual a mensagem por traz dessa pequena fábula? Não tem mensagem, é só isso. Aleatoriamente coisas boas acontecem, não tem um “porquê” do beija-flor ter escolhido a minha sacada e jamais saberei o motivo dele insistir por tantos dias. “Mas porque ele foi embora?” Isso é outra pergunta sem resposta, pode ser que ele tenha morrido. É muito possível. Ou pode ser que ele apenas tenha decidido não mais me visitar.
Ao longo da vida isso acontece tantas vezes que a gente perde as contas, tantas coisas simplesmente vem e vão sem nenhum “porquê”. Coisas que você não sabia que queria ou que um dia fosse sentir falta, elas vem e vão.
Jamais pensei em ter uma ave silvestre como mascote (já sim, uma coruja) e quando ele entrou na minha vida eu simplesmente o ignorei, mas depois de um tempo ele simplesmente se tornou querido, seja pela insistência ou estupidez.

Fico feliz pelos momentos de felicidade que tive ao receber suas visitas matutinas, mas meu pragmatismo e negativismo fazem eu me perguntar “Por que esse beija-flor entrou na minha janela, me fez gostar dele pra nunca mais voltar?”, “Melhor seria se nunca tivesse acontecido?”, “E se minha janela estivesse fechada aquele dia?”, “Deveria ter fechado”.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Post Quatro

“Quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar, onde a Dona Maria mora porque ela me adora e eu sempre posso entrar. Era bem o tempo de você chegar no T, olhar no espelho seu cabelo, falar com o Seu Zé e me ver caindo em cima de você como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer.
E ai, só nós dois no chão frio, de conchinha bem no meio-fio, no asfalto riscados de giz Imagina que cena feliz. Quando os paramédicos chegassem, e os bombeiros retirassem nossos corpos do Leblon, a gente ia para o necrotério ficar brincando de sério deitadinhos no bem-bom. Cada um feito um picolé, com a mesma etiqueta no pé. Na autópsia daria pra ver como eu só morri por você. Quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do oitavo andar em vez disso eu dei meia-volta e comi uma torta inteira de amora no jantar. “
Começo esse post com uma música que muito expressa meus últimos dias. Quando notei que ele estava partindo fui dramática, me joguei do oitavo andar em mil demonstrações atrasadas de coisas que não mais faziam sentido.
Como uma bigorna amassei e sufoquei ao máximo (como se isso um dia tivesse resolvido qualquer coisa), mas nada dessas coisas são racionais, na verdade se o mundo fosse racional ele nem estaria saindo do apartamento àquela hora, ou eu não estaria me importando dele sair ou não. Mas a questão é que ele saiu do apartamento e ao contrário dos filmes não tem cena de reencontro nesse final.
Na verdade aqui só temos dois possíveis finais, a ilusão de se jogar como uma bigorna imaginando que tudo bem estar com alguém que não se importa em estar ali, vivo fisicamente, morto emocionalmente. Ou a segunda opção, dar meia volta e comer uma torta inteira de amoras no jantar.
Como vocês viram os fins são bem trágicos aqui, por isso escolhi essa música, pra dizer que não importa a minha ação, não importa o que eu resolva fazer, me jogar do oitavo andar em busca de algo que já acabou ou ficar em casa me enchendo de carboidratos, nada será deferente se ele não mudar de ideia na frente do T e resolver voltar. Sabem por que? Porque as coisas não são unilaterais.

Eu poderia continuar deitadinha no bem-bom no necrotério com o corpo de alguém que já foi Monomania, mas qual seria a graça disso? O mundo já é tão gelado e triste, precisamos de coisas que nos aqueçam em dias difíceis e os dias andam tão difíceis. Nesse caso a melhor opção é dar meia volta, colocar um par de meias e comer uma torta inteira de amoras no jantar.

domingo, 2 de julho de 2017

Post Três

Você já foi chamado de estrela? Em algum momento alguém já te disse ou você já se sentiu uma? Pois sabia que todos nós somos, é verdade, aquela frase clichê de que todos somos poeira estrelar é um fato científico, explico.
As estrelas são formadas de hidrogênio em altíssima pressão e temperatura, cerca de 340 bilhões de ATMs e 15.000.000° C, isso no nosso sol que em escala cósmica é meio insignificante, mas dá pra ter uma noção do que acontece por lá. Com toda essa pressão e temperatura os átomos de hidrogênio se fundem formando átomos de hélio, lítio, berílio, boro, carbono e afins. Quando a estrela começa a criar ferro ela se torna instável e densa, entrando em colapso, em alguns casos ela se expande queimando tudo que há a sua volta e morre. Sim, estrelas morrem!
Mas como já dizia a esposa de Lavosier, nada se perde, nada se cria, portanto ela pode ter alguns fins, um deles é explodir em grande energia e poeira cósmica cheia de elementos como carbono, nitrogênio e oxigênio que estão onde? Isso mesmo em cada um de nós, ou seja, cada elemento presente em nossa formação já esteve em alguma estrela perdida no tempo espaço.
                Mas na verdade o foco desse texto são os outros possíveis fins para uma estrela, um deles é se tornar uma Aña branca, pequena, serena e estável, só ataca se chegarem muito perto. Outro desfecho para nossa linda estrela colapsada é se tornar um black hole, um terrível e ameaçador sugador de luz e matéria. Mas porque estou escrevendo sobre estrelas e afins?
Hoje me chamaram de buraco negro.